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A escolha de Elvira

Luis Fernando Verissimo

Idéia para um conto. Um homem bate no portão de uma casa de subúrbio. Tem uma certa dificuldade em explicar, pelo interfone, o que está fazendo ali.

- É que eu já morei nesta casa e...

- Cuméquié?

- É o seguinte, senhora, eu...

- Fale mais alto!

- Eu morava nesta casa e se a senhora me deixasse...

- Peraí.

A mulher abre uma portinhola para espiar o homem. Ele tem seus quarenta e poucos, cinquenta anos. Parece ser inofensivo.

- O que o senhor quer mesmo?

- É que eu já morei nesta casa e se a senhora me deixasse entrar só por um minuto, eu queria matar as saudades.

- Sei não...

- Só por um minuto. É que, a senhora entende? Foi aqui que eu passei os melhores anos da minha vida. Eu e a minha mulher, a Cidinha, que Deus a tenha. Foi aqui que nós criamos nossos filhos... Eu só queria matar as saudades.

A mulher hesita. Está sozinha na casa. A casa nem é dela, é dos seus patrões. Deve deixar o homem entrar? Ele parece ter uma boa cara. E só quer reviver os melhores anos da sua vida por um minuto, coitado. Ela abre o portão e deixa o homem entrar.

O homem só falta beijar suas mãos. Pergunta como é o nome dela.

- É Elvira.

- Obrigado, Elvira. Muito obrigado. Olha, estou emocionado, viu?

O homem já entrando, examinando tudo.

- É, continua tudo a mesma coisa. Não, aqui está diferente. Já vi, passaram a sala de jantar para o quarto e aumentaram a sala de estar... E aqui, bem aqui, tem uma tábua solta, não tem?

- Eu nunca notei.

- Será que consertaram? Não, olhe. Continua solta.

- O senhor morou nesta casa quanto tempo?

Mas o homem não está ouvindo Elvira. Está retirando a tábua solta e enfiando o braço no buraco. Está sorrindo com o que acha dentro do buraco. Nisso, toca o interfone. Elvira vai atender.

- Quem é?

- É o seguinte. Eu já morei nesta casa e...

- Cuméquié?

- Eu morei nesta casa e, se a senhora me deixasse entrar, eu...

Elvira confusa.

- Mas o senhor já está aqui dentro!

- O quê? Quem está aí dentro com a senhora?

- É um senhor que disse que morava aqui e...

- É um impostor! Ele estava na mesma cela que eu. Me ouviu contar do que estava escondido aí dentro, saiu da cadeia antes de mim e veio buscar. Não deixe ele levar nada! A casa não era dele, era minha!

O primeiro homem está ao lado de Elvira. Diz:

- O impostor é ele. A casa era minha. Ele é que me ouviu contar na cadeia onde era o esconderijo e veio aqui pegar o que é meu.

- Ai meu Deus, ai meu Deus.

O homem do lado de fora está gritando no interfone:

- Pergunte se ele sabe quantos banheiros tem na casa.

O homem do lado de dentro contra-ataca.

- Pergunte se ele sabe.

Mas Elvira decide não cumprir ordens. Fará seu próprio teste.

- O tanque de lavar roupa fica na área de serviço ou no quintal? A pergunta é para os dois.

O homem do lado de fora perde a paciência.

- Chega de enrolação. Abra este portão!

- Elvira - diz o outro homem - pelo que há de mais sagrado, pela mãe dos meus filhos, a Nelinha, que Deus a tenha, juro que eu é que morei nesta casa e que este pacote é meu.

Elvira fala no interfone:

- O senhor viveu os melhores anos da sua vida nesta casa?

A resposta pelo interfone vem cheia de fúria:

- Não interessa! Abre esta droga deste portão!

Elvira instrui o homem ao seu lado a sair pela porta da cozinha com o seu pacote e pular o muro dos fundos do quintal, que dá para um terreno baldio, enquanto ela chama a polícia para prender quem está tentando arrombar o portão.

Depois Elvira fica pensando: ele disse que a mulher se chamava Nelinha ou Cidinha? Não importa. Ela sempre preferiu as histórias sentimentais.


Domingo, 17 de julho de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.